Sexta-feira, Novembro 26, 2004
Nanésio, o caridoso
Nanésio é o tipo de cara que devia ter nascido rico pra poder ajudar os outros! Quando tinha cinco anos, foi atropelado para salvar a vida de uma rã. Mas Nanésio não era rico e ajudava como podia.
Doava agasalhos mesmo que ficasse sem nenhum para usar, deixava de almoçar para ajudar os pobres, chorava quando via pombas brancas e não saia de casa quando tinha teleton.
Esse ano não foi diferente. Quando soube da data, cancelou todos os compromissos do fim de semana, mas como ia substituir caridades por caridades, não fazia diferença.
O limite de ligações para cada número de doação para o Teleton desse ano, era nove. Ele ligou nove vezes para cada um logo no primeiro dia, mesmo sabendo que eram vinte e sete centavos por minuto, ele ouviu cada um dos quinze de cada ligação.
- Você ligou para doar cinco reais para o Teleton. Parabéns pelo seu gesto de carinho e solidariedade. Pense que com esta ligação você está dando remédio para uma criança doente ou cortando a perna dela, mas para o seu bem...
- Vou chorar... :~
- Ouça mensagens de agradecimento de algumas crianças que serão ajudadas com a sua doação...
- :~~~~~~~
- Obrigada, tio! Vou poder operar a cabeça!
-
- Obrigado, tio! Vou poder voltar a andar!
- 
- Ouça agora uma mensagem de Silvio Santos para os doadores... "Agradeço a cada um que ligou para doar qualquer quantia para o Teleton. A sua ajuda vai fazer com que centenas de crianças e alguns empresários tenham vidas mais felizes e saudáveis... ainda me lembro do primeiro teleton (...)"
E a graçavão continuava com músicas e mensagens carinhosas. Mas Nanésio, ao ver Hebe e Daniel chorarem no último dia, não aguentou tanta emoção e faleceu, deixando uma dívida telefônica de mais de R$700,00, que fez com que seu irmão mais velho entrasse para a vida do crime para tentar saldar a dívida, seu pai se suicidar e sua mãe virar prostituta.
Moral da história: Pobres não podem ser bons e fazer caridades ou vão destruir suas famílias. Deixe esse trabalhinho sujo para os ricos. Quer dizer, eles são egoístas. Então culpe o governo. Ou o imperialismo americano.
Terça-feira, Novembro 23, 2004
O cretino
Não era cretino, mas todos cismavam que era. Era bonzinho até demais pra ser verdade. Mas todos o chamavam de cretino. Não sabia porque.
Quando arranjou um emprego de garçom aos 14 anos, todos os clientes em vez de chamarem "Garçom!" diziam "Vem cá, seu cretino!". Foi reclamar com a dona do restaurante, e ela disse que ele deveria aceitar o fato de que tinha cara de cretino. Ou isso ou seria demitido. Perdeu sua fonte de renda para comprar figurinhas e completar o álbum da Copa.
Aos 20 conheceu Marizélia e começou a trabalhar na xerox de um colégio. O diretor do colégio chamava-o de Cretinildo. Quando foi perguntar o motivo, o diretor abriu um sorriso e disse que sempre apelida os funcionários de maneira carinhosa. "E você tem cara de cretino!".
Os alunos logo descobriram a história e ele passou a ser o "Cretinildo da Xerox", que em dias de com humor, fazia descontos de até 40% no preço total das xeroxs (?).
Marizélia era carinhosa e meiga. Pediu-a em casamento. Ela disse: "Mas que cretino! Mal nos conhecemos e já quer me enrolar ficando noivo. Por quantos anos você vai me ter como noiva, hein?". Marizélia era desconfiada de tudo. Ele ficou triste e tentou se explicar, mas ela havia metido na cabeça que ele só queria ter uma noivinha para enrolar eternamente.
Ela acabou aceitando o pedido, até que gostava dele, mas passou a chamá-lo de cretino também.
Ele já estava ficando irritado. No altar, o padre disse "cretino" em vez do seu nome. Todos riram, é claro, menos ele.
Começou a trabalhar como gerente de um supermercado. Não se sabe como, mas logo todos passaram a chamá-lo de cretino naquele lugar também. E quanto mais ele dizia que isso o chateava, mais as pessoas o chamavam pelo triste apelido. Pelas costas, ele era "cretinão".
Separou-se, casou-se novamente. Morreu. No túmulo não puderam evitar a piada e na sua lápide estava escrito: "Aqui Jaz um Cretino do Bem".
Nasceu cretino e morreu cretino, sem nunca ter realmente sido. Chegou no céu e perguntou para Deus o motivo dessa vida sendo chamado de cretino sem motivo. Deus olhou bem dentro nos olhos dele e disse: "Vai curtir o Paraíso, seu cretino!"
Quarta-feira, Novembro 17, 2004
Dia estranho
Já acordei achando tudo estranho. O fato de ter acordado no chão e com maquiagem pesada me fez sentir estranha. Fui para o colégio sem almoçar. Estranho a mulher ter vindo me buscar cedo hoje, muito suspeito.
Chegando no colégio, mais estranhezas. Cheguei na sala de aula e fui pra janela enquanto a professora não chegava. Meu colégio fica em frente a um quartel, e eu sempre consigo ouvir eles correndo e cantando:
- Um, dois, três, quatro! Quatro, três, dois, um!
Mas hoje, excepicionalmente, eles estavam cantando "Bem que se Quis":
- BEM QUE SE QUIS! DEPOIS DE TUDO! AINDA SER FELIZ!
Tive minhas aulas e fui para casa. Peguei uma graninha com a minha mãe e fui no McDonalds. Tinha um pombo passeando na lanchonete. É raro ver pombos em McDonalds, principalmente fumando. Pelo menos, ele estava na área de fumantes.
Pedi meus queijos quentes e já estava saindo quando de repente, percebi que um homem estava chorando muito numa mesa da área externa do restaurante. Fingi que estava observando as crianças brincarem no play e descobri porque o homem chorava: ele ia pedir sua namorada, uma boneca inflável, em casamento. Ela aceitou e acendeu um cigarrinho para comemorar. Resultado: conseguiu um enfizema pulmonar e um câncer e morreu ali mesmo.
Chegando no prédio, era só o que me faltava: o porteiro queria descobrir em que apartamento estavam fazendo pipoca pra ir pedir um pouco. Ainda bem que não era o meu. Porque ia ser muito estranho receber meu porteiro para comer pipoca e ver filmes.
Segunda-feira, Novembro 15, 2004
Para sempre
Casou, teve filhos, conheceu o Paraguai e as Cataratas do Iguaçu. Mas não esqueceu-se dela. Ah, ela. Mal se lembra de seu rosto, mas lembra-se perfeitamente de sua voz. Ah, sua voz. Ela dizendo que ia para o Rio de Janeiro. Ah, o Rio de Janeiro. Tão longe, tão longe.
Sempre que ouvia falar no Rio de Janeiro, lembrava-se dela. Uma vez ela escreveu uma carta pra ele. Ah, a carta. Uma carta pequena, com uma foto dela, distante, perto do mar. Ela dizendo que só sentia falta dele, que do resto da cidade, queria distância. Ah, distância.
Agora ele teve a oportunidade de conhecer o Rio de Janeiro. Foi até o endereço da carta que ela lhe havia enviado. Um prédio de cinco andares, em cima de uma farmácia. Disse para a esposa que ia visitar um amigo, que gostaria de ir sozinho e conhecer a Tijuca.
Foi. Tocou a campainha, sentia-se com 17 anos novamente. Ouviu uma senhora rouca atender o interfone. Ele disse que gostaria de falar com Ágata. Ela perguntou se ele estava louco e disse que, ainda por cima, Ágata morreu. Ele nem perguntou mais nada, foi indo embora triste, chorando pela Tijuca.
Lembrou-se de sua voz mais uma vez, dizendo que ia para o Rio de Janeiro. Lembrou-se quase completamente de seu rosto e continuou chorando. Sentou-se num bar e pediu um café. Depois do café, pediu uma pinga. Queria lamentar como todos os homens que conhecia lamentam: ficando bêbados e sendo carregados para casa. Não aguentou beber a pinga, forte demais. Deu o resto para um pinguço e foi para o hotel.
Beijou a esposa e dormiu cedo. Amanhã, seis horas da manhã, voltaria para casa.
A senhora que atendeu o interfone deu uma gargalhada ao desligá-lo. Contou para a filha que um louco perguntou pela gata.
- Agora deram para conversar com gatos mortos!
Ah, gata.
Sábado, Novembro 13, 2004
McDia Feliz e Caro
Não dou cinco reais e setenta num sanduíche nem por caridade.
Sexta-feira, Novembro 12, 2004
Os bons defeitos
Existe uma série de bons defeitos pré-programados para quando adolescentes sem opinião os repitam e não precisem dizer seus verdadeiros defeitos quando perguntadas de quais eles são. São defeitos como "sou sincera demais", "confio demais nas pessoas" e "sou muito teimosa".
O que mais me irrita é o da sinceridade. As pessoas mais falsas são as que se dizem mais sinceras. Eu não sou sincera, realmente. Já menti muito para agradar e já tive que aturar certas coisas de bico calado, sem poder dizer o que queria porque, por alguma razão, poderia me ferrar.
Se me perguntassem quais são os meus defeitos diria, com sinceridade, que sou egoísta e falo mal dos outros pelas costas. Além de que, quando eu não gosto da pessoa, vou ignorá-la eternamente, mesmo sabendo que ela nunca me faz mal algum.
Canso de ver jonvens por aí, mais falsos que os cabelos loiros da Kelly Key, dizendo que são sinceros ao jogar algumas verades na cara dos amigos.
- Todo mundo acha que você é gay, mas eu não acho. Tô te dizendo isso com sinceridade: eu não acho que você seja gay, mas é o que estão falando por aí...
Uma pessoa sincera diria: "E aí, você senta no quiabo ou não senta?". Não faço questão de que o mundo todo seja sincero e amoroso, sei que já mentiram muito pra me agradar mas vamos, ao menos, assumir nossos defeitos assim como assumimos as nossas qualidades. As minhas são escrever bem, saber executar toda a coreografia de Macarena e saber ler rápido palavras do avesso.
Sábado, Novembro 06, 2004
Incoveniência
Nos meus primeiros dias de aula no meu novo colégio eu me sentia deveras deslocada, e uma menina que eu conheci, me apresentou a um grupo de colegas dela. Eles estavam jogando detetive, aquele joguinho onde tem assassino, vítima e, é claro, detetive.
Eu fui vítima em todas as vezes que joguei, e o assassino, na maioria das vezes, foi um cara estranho que me olhava de um jeito psicopata e ficava piscando mortalmente pra mim. Assustada, disse que teria que ir embora e fui sentar sozinha longe daquele futuro jason.
Dias mais tarde eu esperava a senhora que vai me buscar de carro chegar, ela me pegava às 18h30m, e eu saí às seis. Fiquei sozinha uns quinze minutos, mas de repente, surge o cara estranho e senta do meu lado. Ele acha que é meu amigo.
- Oi.
- Opa...
- E aí?
- To esperando a mulher vir me buscar de carro.
- Ahn.
De repente, ele começa a cantar uma música do Capital Inicial. Achei estranho, e as pessoas que estavam por ali começavam a ir embora. Estava imensamente desconfortável naquela situação. O que fazer? Cantar junto? Dançar? Mandar a mala calar a boca?
Não poderia provocá-lo, desse jeito despertaria seu instinto assassino. Já estava vendo a hora em que ele ia tirar o facão da mochila. Mudou de música, começou a cantar "Isso", dos Titãs.
18h30m, a mulher tinha estar chegando! Eu olhava desesperada para o meu relógio, contando os segundos para que a maldita mulher aparecesse. O maníaco, por sua vez, cantava "Isso" de olhos fechados... viajando.
Os funcionários da escola começavam a ir embora, e ali na frente do colégio, onde eu estava esperando, sobraram apenas eu, ele, um casal aos amassos e um gato vadio. Comecei a pensar em todas as péssimas possibilidades e fiquei apavorada.
Imagina se ele entra no carro, coloca o facão no pescoço da mulher e manda ela nos deixar num lugar sinistro? E se ele nos seqüestrasse? Oh!
De repente, a cantoria parou e ele começou a falar. Mas eu estava tão concentrada nos meus pensamentos mórbidos que nem percebi que ele estava falando. Só ouvi o:
- Qual das três?
- Ahn? O que? Desculpa, eu tava pensando em outra coisa...
- Qual das três músicas do Legião você gosta mais? "Bláblá", "Lálálá" ou "Tiririr"?
Eu não gosto de Legião, nunca gostei. Ele disse o nome de três músicas das quais eu nunca tinha ouvido falar. Respondi:
- "Tiririr".
E ele começou a cantar de novo. Quase 19h00m e nada da mulher do carro. Liguei para casa e perguntei se a minha mãe sabia o motivo da demora. Ela disse que não, que era pra eu esperar mais cinco minutos e, se ela não chegasse, que eu ligasse pra ela, que ia arranjar uma solução.
Mas foi eu desligar o celular que a mulher apareceu. Levantei rápido, disse tchau e ele foi embora em seguida. Depois desse incidente, ele continua me olhando com cara de psicopata, mas eu sempre desvio o olhar e mudo de direção. Espero que ele não saiba a minha sala ou esteja planejando minha morte para as férias. Vocês não viveriam sem meu blog.
Sexta-feira, Novembro 05, 2004
A Globo.com tem cada uma...
O que ele deve fazer primeiro? Claro que é governar!
Terça-feira, Novembro 02, 2004
Pegadinhas by Fetinho
Eu passei o feriado na casa do meu avô, na minha antiga rua, onde eu morei há oito anos. Ainda conheço muitas pessoas de lá e tal, e me lembro muito bem de um menino, que desde quando eu fui morar lá (há uns dez anos e meio), era pequeno, baixinho, tinha a cabeça enorme e era mais feio que chamar o pai de "bocó".
Aí passam-se os anos e o menino, que eu acabei de batizar de "Fetinho", por parecer um feto grande, continua a mesma coisa. Não ficou mais alto nem engordou, impossibilitando que sua cabeça pareça menor.
Fetinho sempre me olhava estranho, como se tivesse raiva de mim e que soubesse que eu e minha irmã sempre fizemos piadinhas sobre ele. Fetinho cresceu um pouco, seu cérebro imenso trabalhou durante esses dez anos e criou uma pegadinha de alto nível que me fez ficar com cara de boboca ontem a noite.
Depois de voltar do supermercado com meus mais, saí do carro ainda na rua, pra abrir o portão da casa pro meu pai estacionar. Depois de ter feito isso, esperei no meio da deserta rua que meu pai terminasse de colocar o carro na garagem.
Nesse momento, Fetinho passa por mim dizendo "Hã, Hã, Hã", que soa como "rã, rã, rã", e que parecia que ele estava mostrando que estava bravo comigo. Peguei uma pedrinha no chão e já me posicionei para jogá-la em sua barriga, para que ele perdesse o equilíbrio, caindo no chão, e não conseguisse levantar mais a cabeça.
Mas não! Fetinho continuou andando e cantando: "Rã, rã, rã! Sapo, perereca!".
Ri, aliviada e Fetinho se sentiu vingado pelos anos de zoação com sua pessoa. Hoje almoçamos todos juntos, na mesma rua, cada um em suas casas. Foi uma cena emocionante, digna de final de novela e de filme que acaba bem, como "Bud" e "Os fantasmas se divertem".
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