Segunda-feira, Maio 26, 2008
O Cabelinho em 4 Partes
Um A mineira de cabelos oxigenados sem retoque de raiz resolveu que ia mesmo encontrar-se com o instrutor de auto-escola que tocava percussão nos fins de semana, que mal havia? Foram a um forró e dançaram muito, tendo a dança levado a beijos e os beijos a muito mais. Ficou pensando se ele ia achar que ela foi fácil, ficou pensando em como foi bom, ficou pensando se ele ia ligar, ficou pensando em tanta coisa que esqueceu-se de muitas outras. Dois Era uma fabriqueta dessas bem rústicas de queijo artesanal muito caro. O melhor de Minas, diziam. Nela trabalhavam funcionários uniformizados e limpos, de touquinha e tudo. Mas naquele dia a moça de cabelos oxigenados sem retoque de raiz que embala os queijos esqueceu-se de pôr a touca e trabalhou por algumas horas sem ela. Seu supervisor disse que naquelas poucas horas nada demais devia ter acontecido, mas que não se repetisse e que colocasse uma touca descartável com pressa. Ela fez que sim com a cabeça e foi nesse movimento que um dos 100 fios que um ser humano perde em média por dia caiu, flainou e pousou delicadamente em cima de um dos queijos. Três A tarde estava linda naquele hotel de estilo neoclássico paulista e uma madame estava tão entretida comentando a última partida de críquete que jogara em Londres que nem percebeu quando cortou seu finnest queijo mineiro com um fio de cabelo em cima. Que viagem fez aquele fio de cabelo! Antes de ser mordido por dentes tratados em Paris, nasceu na cabeça de uma mineira, foi esfregado nos lençóis de um motel barato, flainou até um queijo e viajou quilômetros e quilômetros de caminhão até chegar naqueles dentes. Esse cabelo transcedeu de classe social, passando do couro cabeludo ensebado de uma mulher que mora num bairro chamado Pau da Prata para um sanduichinho de cream cracker com queijo minas nas mãos de uma milionária, que só percebeu sua presença ali na primeira mordida e achou um ultraje. O cabelo tinha sido pego! Não pôde atingir o instestino acostumado a caviar! Mesmo sendo apenas um cabelinho, foi discriminado por ser pobre e sujo. O garçom, careca, garantiu que não havia funcionárias louras oxigenadas trabalhando na cozinha e que tomaria as medidas cabíveis para o caso, mas a ricaça já se movia para a sua limousine, ofendidíssima. Horas mais tarde escreveria um artigo para influente jornal de circulação nacional cujo dono era seu amigo próximo. Artigo esse que levaria o hotel e a fabriqueta à falência. Quatro Desempregada, a moça de cabelos oxigenados sem retoque de raiz pediu emprego na auto-escola do namorado, tendo seu cabelinho os reaproximado e, depois de algum tempo, feito do percussionista de fins de semana, um homem casado.
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