Quarta-feira, Junho 22, 2011

Talvez Carlão

Decidiu que não seria mais o mesmo Carlão. Aliás, esse apelido já tinha em si uma certa carga pesada: Carlão. É uma palavra que sai da boca e desaba no chão. Faz estardalhaço. Chegou o Carlão! Deve ser um homem alto, forte, meio gordo, expansivo e de óculos Ray-Ban aviator com haste dourada. Original, comprado com o seu salário de delegado federal.

Mas, não mais! Agora seria Carlos. Mas Carlos também não dá. Carlos é muito médio. Lá vem o Carlos! Parece até que é uma pessoa chata, que trabalha em repartição. Carlos é o nome de quem não é convidado pra festa do escritório, mas acaba ajudando a limpar a bagunça dos colegas que o desprezam. Carlos é médio, qualquer um é Carlos. Carlos sai da boca e se perde no espaço. Precisava de um nome diferente, mas não tão molenga.

Carlinhos também não dava. Mudar de Carlão para Carlinhos era dar na pinta demais. Acorda Carlão e dorme Carlinhos? Eu, hein! Carlinhos tem que ser Carlinhos desde pequenininho ou, pelo menos, desde a faculdade. Camarada com mais de 30 e há mais de 10 sendo chamado de Carlão mudar para Carlinhos é esquisito. Algo ocorre. Perde aquela testosterona toda. Não quer dizer que é viado, mas vai cuidar da mamãe a vida toda e dos gatos dela depois que a velha morrer.

Teve uma ideia: apelaria para o seu primeiro nome! Carlão era, na verdade, José Carlos de Almeida e Silva, mas agora só atenderia por José. José. Mas José vira Zé e Carlão não queria deixar de ser Carlão pra virar um Zé qualquer. Um sobrenome, talvez? Almeida? É, Almeida atendia às suas expectativas, casava com a nova personalidade, mas se o chamassem por Almeida ele não ia conseguir atender. Imaginou um dia em que alguém, tentando salvá-lo de um atropelamento ou tiro, gritasse: ALMEIDA, CUIDADO! Ele ia procurar o Almeida para tentar alertá-lo também.

Mas um nome não é um homem, certo? E quem mudaria era o homem. Carlão pensaria mais tarde numa alcunha que lhe coubesse melhor. Por ora, planejava mudar seu estilo de vida. Cigarros? Nunca mais! Jogaria todos na privada! E não apenas isso: jogaria todos na privada e daria descarga. Nem todos desceriam, mas ele daria quantas descargas foram necessárias para que até o último cigarro tomasse o caminho do esgoto e encontrasse um rato que o fumasse! Mas se o rato fumasse algum dos seus cigarros, morreria, pois uma vez leu que os cigarros têm veneno de rato em sua composição e esse era um dos motivos pelos quais ele largaria esse vício. Chega de fumar veneno de rato!

Bebida? Nem antes, nem durante, nem depois do futebol. O novo Carlão só bebe sucos. E se a rapaziada for na casa dele, vai experimentar muitas combinações de frutas nos variados sucos que ele preparará na sua centrífuga, mas nem uma gota de álcool.

O novo Carlão será um pai melhor, um marido excelente, um funcionário imaculado, bom vizinho, bom cristão, bom amigo, bom filho, bom cunhado, bom irmão! O novo Carlão será até mais bonito, já que praticará esportes e se alimentará bem. Mas por mais que o assédio da mulherada cresça, Carlão continuará sendo fiel à sua eterna namoradinha Judith.

Quando parou de pensar nessas coisas, Carlão apagou seu cigarro, deu mais uns goles no uísque que o esperava na cabeceira e despediu-se de Neidinha com um beijo apaixonado. Ia certamente sentir falta de seus vícios quando o novo Carlão saísse de seus pensamentos.

Mas, por ora, é onde ele vai ficar. E talvez fique até a morte... já pensou em como o novo Carlão seria enterrado? A viuvinha chorando em cima do caixão e os filhos (o mais velho, fiscal do imposto de renda; a do meio, advogada de sucesso; e a caçula, estudando na França, teria vindo só para o enterro do pai) muito emocionados amparando a mãe... ah, é o enterro mais lindo de um homem que nunca vai existir.

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