Sendo assim, estava eu no conforto do meu lar quando me informam, por email, que fui selecionada por uma empresa da área do entretenimento. Me programei direitinho para chegar no horário e coloquei a minha roupa de profissional séria e responsável, porém criativa, e fui.
Chegando no prédio, me dirigi ao andar da entrevista e achei curioso que a porta tivesse o desenho de um circo. Resolvi considerar aquilo algo de vanguarda, uma empresa moderna, sem medo de se arriscar. Bacana. Entrei e lá havia outros sete candidatos, todos com cara de sérios, mais estudados, bonitos, ricos e poliglotas que eu. Estávamos na sala de espera e fomos chamados para uma sala de reuniões, onde entrou uma moça loira muito perfumada que começou a falar sobre a empresa e a vaga.
- Nós aqui da Clown fazemos a representação artística de palhaços profissionais. São atores que podem ser chamados para diversos tipos de eventos e precisam de suporte. A gente cuida da agenda, procura ver que trabalhos são bons pra eles, enfim, cuidados de tudo, eles só precisam aparecer no dia, rs. Essa vaga é para trabalhar como assistente de marketing do Palhaço Garrafinha. Ele é o nosso melhor palhaço e queremos reposicioná-lo no mercado, pois o seu público está crescendo e queremos acompanhar esse amadurecimento. Por isso, hoje vocês vão fazer uma provinha, uma redação e depois faremos uma dinâmica, ok?
Fizemos a provinha, a redação e ela voltou para recolher tudo e começar a dinâmica, que consistia de um case que precisaríamos resolver em grupo. Obviamente, eu caí no grupo dos que me pareciam menos inteligentes, porém orgulhosos, que teriam dificuldade em entender minhas ideias, mas facilidade em descartá-las.
O case era o seguinte: o palhaço Garrafinha é convidado para se apresentar no comício de um político muito influente e extremamente popular, porém corrupto. O meu grupo deveria defender a desistência do show e, o outro, deveria dar motivos para levar aquilo adiante. Além disso, devíamos dar uma sugestão de reposicionamento para alavancar a carreira dele e atingir melhor o público juvenil. Eu comecei:
- Bom, nós achamos melhor que o palhaço não...
- Palhaço Garrafinha. - A loira me interrompeu.
- Oi?
- A gente gosta que ele seja chamado pelo nome artístico dele.
- Oh, sim. Acreditamos que o Palhaço Garrafinha deva cancelar o show pois isso atrairia muita publicidade negativa e blablabla.
Continuei enrolando por algum tempo, depois passei a palavra para meus colegas de grupo, que conseguiram dizer o mesmo que eu, só que de forma errada. Suspirei. Voltei a falar na hora da sugestão:
- E nós achamos que, para atingir o público mais velho, o palhaço Garrafinha podia trocar o seu nome para Palhaço Garrafão de Vinho e se tornar um personagem alcóolatra, que só consegue ser engraçado quando bebe, já inserindo na roda esse problema grave que é o alcoolismo.
- Vocês realmente acham isso?
- Certamente. Além disso, ele poderia ganhar uma parceira, a Palhaça Pinguça, que ajudaria a abordar os temas da sexualidade, tão comuns na puberdade. Ela poderia usar uma dessas roupas que fazem a gente parecer que está pelado, mas não está, com uns pêlos pubianos feitos de nylon e tudo mais, abordando as transformações do corpo. Ela ajudaria o Palhaço Garrafão de Vinho a se livrar do vício das formas mais divertidas. Por exemplo, quando ele trocasse a água que sai da flor da lapela para molhar o público por cachaça, ela acenderia um isqueiro e faria surgir uma coluna de fogo, impressionando a todos. O maior interesse dela para ajudá-lo a parar de beber é porque ele não dá no couro quando está de porre, mostrando aí mais um lado maléfico do álcool. Garantia de sucesso.
Todos estavam me olhando um pouco surpresos e o outro grupo sugeriu que o palhaço Garrafinha lançasse um CD de rock colorido. A loira aceitou essa ideia. Não sei se gostaram das minhas. Pelo menos ainda não recebi aquele fatídico email dizendo que fui para o banco de dados. Se eu ganhasse um real por dia para cada banco de dados em que estou "arquivada", eu nem precisaria procurar um estágio.
Ps. Não estou mais desempregada.
Ps. Não estou mais desempregada.
0 comentários:
Postar um comentário