Quarta-feira, Setembro 21, 2011

A cruz da profissão: 6 situações clássicas na vida do publicitário

Toda profissional carrega a cruz de seu ofício. Os tais dos ossos! Por mais que uma pessoa ame o que faz e trabalhe exatamente com o que sempre desejou, ainda assim está trabalhando. Aquele ditado que diz "quem ama o que faz não trabalhará um dia na vida" foi criado por alguém que vivia de herança e que amava ficar sem trabalhar.

Para todo o resto de nós que realmente precisa desafiar os limites do desodorante para ganhar o pão de cada dia, trabalhar sempre será uma atividade distinta do lazer, por mais que o seu lazer seja trabalhar. E parte dos ossos de toda profissão é lidar com o senso comum que existe sobre ela. Sempre aparece muita gente vomitando abobrinhas sobre o que você faz, e chega uma hora em que não adianta mais explicar (gif explicativo no fim do post).

Exemplo: policiais são corruptos, advogados são mentirosos, artistas são preguiçosos/inúteis, mecânicos só querem roubar o seu dinheiro, quem é da informática é nerd e por aí vai... E nós, da publicidade, somos sempre descolados, comunicativos e criativos. Pra qualquer coisa. Só que, no fundo, todo mundo acha as próprias ideias são geniais e que, como consumidores fiéis, sabem tudo sobre a marca e o produto. É aí que começam os nossos problemas.

E, muito além de todo mundo achar que eu posso criar um anúncio genial sobre qualquer coisa no meio de uma conversa e que o único grande publicitário do Brasil é o Washington Olivetto, sempre me deparo com outras seis situações clássicas:

1 - "Tive uma ideia muito boa pra um comercial!"

Por favor, não conte. Ninguém quer saber. Você não chega pra um médico e diz "Tive uma ideia muito boa para realizar a operação de hérnia de disco em menos tempo, menos dor e com mais eficiência!", pois a sua opinião de leigo pouco importa para quem é profissional. É legal que você exercite sua criatividade, está de parabéns! Que tal pintar um quadro agora? 

2 - Adoram polemizar anúncios com você

Você lá está, numa nice, cuidado de sua própria vida (que já dá um trabalhão), quando ouve:

- Você já viu aquele comercial da marca tal? Aquele que tem um periquito sendo sodomizado por um cachorro?!?! O que você achou?

Muita calma nessa hora... sabe o que isso quer dizer?

É uma cilada, Bino!

Tenha muito cuidado! Você está prestes a entrar numa discussão infinita sobre uma campanha que você nem ajudou a criar com alguém disposto a ignorar todos os seus argumentos só pelo gostinho de convencer um representante da área que considera um anúncio de mau gosto. As cartas "você não é o público-alvo" e "existem pesquisas pra isso" são ineficazes.

É preciso entender que essas pessoas têm prazer em discutir isso COM VOCÊ, e parece haver um bônus em discordar da sua opinião. Aparentemente elas tiram algum proveito próprio em convencer um publicitário sobre como elas acham que agência e cliente deviam agir de outra forma. E talvez devessem mesmo, mas você não é a polícia da propaganda para entrar no departamento de marketing da empresa ou na agência gritando "TEJE PRESO POR VEICULAR CAMPANHA QUE DESAGRADOU MEU AMIGO!".

3 - Te confundem com um empreendedor ou investidor maluco


Esse é um grande equívoco, mas já perdi a conta do número de pessoas que vêm me contar sobre um produto ou serviço GENIAL que inventaram quando estavam no chuveiro. São invenções à la professor Pardal que um publicitário teria tantas chances de fazer dar certo quanto qualquer outro profissional que nunca tentou empreender nada na vida: "Aí, tive uma ideia muito boa: um casaco com ventilação, pra poder usar no verão!". E pensam que, só porque eles comprariam, já é a garantia de que seria um sucesso.

4 - Perguntam coisas que você não sabe responder

Publicitários são confundidos com entidades que tudo sabem sobre todas as campanhas já veiculadas, do briefing ao recall. Você tem que ser uma espécie de Google da propaganda e saber na ponta da língua todos os slogans, o nome dos atores, do mascote, como era o cenário... senão "AFF, MAS VC NAUM TRABALHA COM ISSO? DEVIA SABER! Fulano lembra e você não lembra! Tsc, tsc".

5 - Não acreditam no que você fala



Quando você começa a estudar publicidade e a trabalhar com isso, conhece cases inusitados e interessantes que eventualmente podem surgir no meio de uma conversa informal com seus amigos e familiares. E é contando essas histórias que você se sente o próprio Forrest Gump, pois o olhar incrédulo dos interlocutores te fazem até duvidar se você não está mesmo inventando aquilo e a começar a questionar suas fontes. "Tá brincando que as vendas aumentaram tanto por causa disso?! Esses números devem estar errados!". E não adianta dizer que é verdade, a sua palavra de profissional e um papel escrito "picles" tem a mesma credibilidade nesses momentos.

6 - Acham que seu trabalho é moleza


Essa doença também acomete muitos dos que trabalham em escritório, é o velho e bom "ah, mas você passa o dia inteiro em frente ao computador no ar condicionado!". Mas os publicitários levam a pior porque pouca gente sabe ao certo o que acontece numa agência ou num departamento de comunicação e, os que sabem, acham que é fácil de fazer. Fora que muitos têm aquela imagem de que todo publicitário é da área de criação e passa o dia inteiro fumando maconha vestindo um terno laranja com os pés cruzados em cima da mesa esperando um insight. É uma tristeza informar que a realidade é muito mais sóbria, desgastante e calórica que isso.

7 - Simplesmente não sabem o que é publicidade


Esse é o pior de todos. Nos casos descritos acima, ainda há uma vaga ideia na mente dos incautos sobre o que é publicidade, que tem a ver com as propagandas, coisa e tal. Mas uma das situações mais constrangedoras que há é contar para alguém qual é a sua profissão e a pessoa apenas repetir o que você disse claramente impossibilitada de processar a informação.

- Eu sou publicitária.
- Publicitária...
- ...
- Mas você trabalha com o que?

E, mesmo de uma longa explicação para super leigos, às vezes ainda é notável pela cara do sujeito que ele ainda não entendeu o que você faz. É nesse exato segundo em que você desiste.


Mas nem tudo é tão ruim, minha gente! O lado bom de ser publicitário é poder... hum, deixe-me ver... acho que é...  Bom, assim que eu descobrir, terei uma resposta decente a quem me perguntar porque escolhi esse curso. E vou poder parar de me lamentar por não ter feito alguma engenharia ou outra profissão séria pra ser chamada de dotôra por aí.

Ps. Eu sei que o gif da menina mexendo as sobrancelhas tá enorme, mas ele é muito bom para eu me importar com isso. Superem.

2 comentários:

Miry disse...

I hear you, sister!

Fräulein Renata disse...

Ótimo texto, Luíse! Adorei! Vc falou por mim e por tantos outros publicitários que já viveram pelo menos uma das situações acima. É dura a vida de publicitário, viu?