Há esse texto rolando nessa nossa internet de cada dia chamado "Namore uma garota que lê", que eu sinceramente não estou nem aí para quem escreveu e não me daria o trabalho de dizer que foi alguém cujo nome é Rosemary Urquico (traduzido e adaptado por Gabriela Ventura) se eu não fosse uma fiel seguidora da filosofia "não faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você e blablablá". Porque, acreditem, eu escrevo, e não gostaria nem um pouco de ver alguém por aí pegando meus textos sem créditos e tudo mais. Então, taí. O link é de alguém que replicou o texto, para vossa apreciação. Leiam e depois voltem. Vou ficar aqui quietinha esperando.
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Leram? É um texto bastante estúpido. Resolvi escrever uma resposta a ele porque, bem, eu sou uma garota que lê e não concordo com nada do que ela diz. E o que me incomoda mesmo é o tom generalizante do texto, como se algum dono da verdade pudesse descrever a nós, meninas que lêem, como se fôssemos todas umas polianas.
Namore uma garota que lê. Uma garota que lê O QUE? Não vamos entrar no mérito da qualidade da leitura baseada em nossos gostos pessoais, por mais que isso já diga (e muito!) sobre a personalidade da leitora em questão. Mas há livros sobre exatamente quase qualquer coisa e público para qualquer gênero. Uma garota que lê livros feministas, auto-ajuda para mulheres independentes, certamente não criará esse mundo de fantasia aludido no texto, por exemplo. E eu que, vez ou outra, leio livros de guerra? Vou querer batizar meu filho de Lieutenant Frank? O hábito da leitura não nivela a personalidade de ninguém. Livros não são crack.
Quando ela começa com esse papo de "procure uma garota que lê numa cafeteria, o café dela está frio porque ela está absorta". BA-LE-LA. Essa é uma garota que lê também é uma idiota. Eu jamais gastaria meu rico dinheirinho numa bebida quente e a deixaria lá parada para esfriar, pra começo de conversa. Além disso, é aí que essa autora mais peca: ela deixa claro que só abre livros fora de casa na vã esperança de viver a sua fantasia em que um belo intelectual vai se encantar pela sua timidez (pff...) e tentar desvendar os mistérios de sua mente romântica. Querida amiga que acreditou nessa possibilidade por um segundo sequer, clique aqui. Agora vai lá, joga uma água no rosto, sente o cheiro do café... já acordou? O máximo que você vai conseguir abrindo um livro em uma cafeteria é não conseguir se concentrar na leitura.
É o tipo de dica de quem lê livros demais, sim, mas todos eram romances baratos da banca de jornal. E, com meu pessismismo de quem foi criada acompanhando casos como o do maníaco do parque, se alguém realmente quiser interrompê-la para conversar, há 99,9% de chances ser alguém que não valha nem o banho que você tomou pra sair de casa.
Eu só abro livros fora de casa quando realmente quero lê-los ou quando quero DELIBERADAMENTE EVITAR QUE CONVERSEM COMIGO. Esse texto presta um desserviço a todos que usam livros como válvula de escape em situações sociais nas quais você não quer interagir com ninguém. Agora qualquer idiota vai se achar no direito de interromper minha sagrada leitura porque, bem, meninas que gostam de ler são românticas e vão achar o gesto bonito... argh.
O texto continua falando sobre como é namorar uma garota que lê e aí ela perde a linha, viaja MESMO, como se uma garota que lê se tornasse criativa por osmose. Nem toda garota que lê é romântica, quer viver um conto de fadas, se casar e ter filhos! Tem muita garota que lê poesia gótica, por exemplo. Ou Marx! Uma garota que lê Marx não vai sussurar Keats no ouvido de ninguém. Vai no máximo entoar A Internacional bem baixinho.
Agora, o pior de tudo, o que realmente me motivou a escrever essas bem traçadas linhas pixeladas, é que a autora é uma mulher. E termina o texto mandando o cara namorar uma garota que ESCREVE. Ali eu perdi qualquer respeito pela coisa toda, principalmente porque ela é hétero, ou seja, está advogando em causa própria. É como se eu escrevesse "Namore uma garota que seja morena, de 1,70m, cuja graça seja Luíse, moradora do Rio de Janeiro e que tenha duas poodles...".
Quando me dei conta disso, notei que, na verdade, esse texto deve ter sido escrito com a intenção de que chegasse "acidentalmente" na caixa de emails de alguma paixão platônica dela, tentando fazer com que o sujeito a enxergasse não só como a amiga tímida e super dedicada que o ajuda nos trabalhos da faculdade e é mais atenciosa que a própria namorada dele. Esse texto é uma espécie de Don't Cha nerd! Se for isso mesmo, está perdoada. Todos cometemos tolices quando movidos pela paixão.
Mas fique esperta, Rosemary: na próxima vez em que você quiser incentivar alguém a te namorar usando esse argumento, tenha a decência de usar a primeira pessoa, senão você pode acabar ofendendo toda uma classe.

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