Segunda-feira, Outubro 17, 2011

Para onde vão os calangos na chuva


Era a noite de lançamento de “Para onde vão os calangos na chuva” e Odilon Sirnaz, o autor, estava muito, muito agitado. Não só pelo pavor de uma péssima recepção da crítica e, em especial, de sua mãe, que há anos tentava de sutilmente fazê-lo entrar em depressão insinuando, bem de leve, que ele era, nas palavras dela, “o pior autor de toda a história da linguagem – e isso incluindo os desenhos nas cavernas”. Ok, talvez não fosse tão de leve assim.

De toda forma, a livraria estava especialmente lotada àquela noite e Odilon não fazia ideia de que a tímida divulgação que fez em suas redes sociais daria tanto resultado. “É, é mesmo uma revolução!”, pensou ele. E por um breve instante sentiu-se aliviado por não ter topado pagar o que a editora estava pedindo para fazer a publicidade do livro.

Aquela multidão, porém, era bem jovem e estavam todos vestidos de maneira engraçada. Não pareciam ser o público de seu livro. Odilon percebeu, então, que seus 36 amigos do Orkut (ele é daqueles que só “adiciona gente que conhece de verdade”) não haviam sido necessariamente eficientes em viralizar os convites à noite de autógrafos, muito menos estavam presentes. Aquele público estava ali, na verdade, para o lançamento do novo DVD de um dos filmes inspirados nos livros da série “As Batatas de Nachnamen”, um sucesso absoluto entre os púberes.

Aparentemente algum ator coadjuvante com menos de 3 falas no roteiro estaria presente mais tarde. Havia pôsteres e figuras de papelão em tamanho real com os atores e até telões exibindo o trailer. Isso tomava toda a fachada da Loves & Livros do Shopping Square Plaza, exceto por um tímido A4 impresso com uma foto de um calango e os dizeres “Noite de autógrafos – Odilon Sirnaz: 19h:30m”.

Assim, ele entrou na livraria pontualmente e, após pedir licença por exatas 13 vezes, encontrou sua tímida mesinha, perto da seção esotérica, posta com uma pequena pilha de seus livros, uma caneta Bic Cristal Gel preta e um chumaço de marca-páginas temático do livro que inspirou o filme que estava sendo lançado ali em DVD.

Uma funcionária com evidentes problemas de oleosidade na pele, aparelho nos dentes e um crachá que dizia “TREINAMENTO” aproximou-se e pediu que ele levantasse.

- Senhor, o senhor não pode sentar aí, vai chegar o autor já, já.
- Oh, sim, pois bem... sou eu. Eu sou Odilon, muito prazer – respondeu ele, cordialmente.
- Ah, é? É o senhor? Peraí, vou chamar o gente. FÁBIÔ!

E saiu andando por entre as prateleiras cheias de títulos escritos por meio de psicografia. Momentos depois, aproximou-se de Odilon um rapaz pouco mais velho que a mocinha em treinamento, sendo seguido de perto por ela e claramente estressado, mas fazendo o possível para parecer gentil mesmo falando rápido e com pressa:

- Boa noite, seu Odilon! Está tudo certinho? Meu nome é Fábio, sou o gerente desta filial. A Emanuelle vai assessorar o senhor esta noite. Qualquer coisa pode falar com ela. Me desculpe não poder acompanhar o senhor, mas esse lançamento do DVD está tomando todo o meu tempo e... PERAÍ, EU JÁ VOU! – e disse essa última frase a alguém que desesperadamente tentava chamar sua atenção para uma criança que estava tentando escalar uma ilha de DVDs para tentar alcançar o que estava mais no alto, pois julgava ser “o mais novo”.

Odilon não teve chance de falar com o gerente. Emanuelle movia-se no mesmo lugar, sem notá-lo, esticando o pescoço para ver o que estava acontecendo lá onde estava o fuzuê pelos DVDs. Era nítido que acompanhá-lo não era a função que ela desejou para aquela noite e só o fazia pois foi o que gerente havia mandado. Impaciente, acabou pedindo licença fazendo um gesto com as mãos e foi atrás de alguma tarefa mais emocionante.

Após uma hora que pareceu durar um quarto de século, o pai de uma das crianças esquivou-se da confusão e foi dar uma volta na livraria. Encontrou Odilon sentado com seu aspecto desesperançado e inicialmente pensou que se tratava apenas de um aposentado que, cansado de não interagir com ninguém, resolveu sentar-se numa livraria para observar a vida alheia. O resto do cenário, porém, disse diferente, e a pilha de livros foi um elemento chave para ele perceber que estava diante de um autor em sua noite de gala.

- Licença, o senhor é o autor deste livro? – não custava checar.
- Sou, sim, prazer. O senhor veio para a noite de autógrafos?
- Não, meu filho Julio está ali com as outras crianças por causa desse DVD aí que lançaram. Eu chamo essa série de "furo no bolso".
- Certo...
- Mas esse livro – folheou algumas páginas – é sobre o que?
- É um romance sobre um jovem cineasta que vai filmar seu primeiro longa metragem, que se passa no sertão, e quando chega no interior do Ceará com a equipe um fenômeno tropical os surpreende e chove na região por 60 dias seguidos.
- Que interessante!
- Obrigado.
- Eu levaria um, mas só leio livros de ficção científica, sabe? Eu acabo me desinteressando dos outros.
- Entendo. Não quer dar de presente?
- Nah... eu daria para a minha esposa, mas ela é completamente paranoica e eu precisaria ler antes dela, pois, se houver algo que ela não goste na leitura, ela vai querer saber o que é que eu quis dizer com isso.
- Tudo bem.
- Mas achei bacana! Vou indicar por aí. Ah, o Julio tá me chamando, acho que conseguiu o autógrafo daquele ilustre desconhecido e agora quer que eu tire uma foto... Foi bom te conhecer, tchau!

De maneira que Odilon permaneceu sentado por mais algumas horas sendo interrompido ocasionalmente por outros pais incautos e muito raramente por Emanuelle, que agora se preocupava em não deixá-lo desassistido para que nenhuma queixa chegasse aos ouvidos de Fábio.

Apareceram dois amigos e uma prima de Odilon. Fizeram questão de ser fotografados com ele, mesmo que fosse com o celular, mas tornaram-se um tanto incômodos quando tornaram aquela noite um motivo para reclamar de diversas coisas, principalmente da incompetência da editora em não escolher outra data para o evento.

Ao contrário do que se possa imaginar, Odilon não estava nem um pouco insatisfeito com isso. Ver a livraria às moscas teria sido muito mais deprimente. De certa forma, ele sabia que o lançamento de um livro com esse título no Rio de Janeiro não daria certo. O carioca mal sabe o que é um calango no sol, que dirá quando está chovendo...

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