Era a noite de lançamento de “Para onde vão os calangos na
chuva” e Odilon Sirnaz, o autor, estava muito, muito agitado. Não só pelo pavor
de uma péssima recepção da crítica e, em especial, de sua mãe, que há anos
tentava de sutilmente fazê-lo entrar em depressão insinuando, bem de leve, que
ele era, nas palavras dela, “o pior autor de toda a história da linguagem – e
isso incluindo os desenhos nas cavernas”. Ok, talvez não fosse tão de leve assim.
De toda forma, a livraria estava especialmente lotada àquela
noite e Odilon não fazia ideia de que a tímida divulgação que fez em suas redes
sociais daria tanto resultado. “É, é mesmo uma revolução!”, pensou ele. E por
um breve instante sentiu-se aliviado por não ter topado pagar o que a editora estava
pedindo para fazer a publicidade do livro.
Aquela multidão, porém, era bem jovem e estavam todos
vestidos de maneira engraçada. Não pareciam ser o público de seu livro. Odilon percebeu, então, que seus 36 amigos do
Orkut (ele é daqueles que só “adiciona gente que conhece de verdade”) não haviam sido necessariamente eficientes em viralizar os convites à noite de autógrafos,
muito menos estavam presentes. Aquele público estava ali, na verdade, para o lançamento do novo
DVD de um dos filmes inspirados nos livros da série “As Batatas de Nachnamen”, um
sucesso absoluto entre os púberes.
Aparentemente algum ator coadjuvante com menos de 3 falas no roteiro estaria presente mais tarde. Havia pôsteres e figuras de papelão em tamanho real com os
atores e até telões exibindo o trailer. Isso tomava toda a fachada da
Loves & Livros do Shopping Square Plaza, exceto por um tímido A4 impresso com uma foto de um calango
e os dizeres “Noite de autógrafos – Odilon Sirnaz: 19h:30m”.
Assim, ele entrou na livraria pontualmente e, após pedir
licença por exatas 13 vezes, encontrou sua tímida mesinha, perto da seção
esotérica, posta com uma pequena pilha de seus livros, uma caneta Bic Cristal
Gel preta e um chumaço de marca-páginas temático do livro que inspirou o filme que estava sendo lançado ali em DVD.
Uma funcionária com evidentes problemas de oleosidade na pele, aparelho nos dentes e um crachá que dizia “TREINAMENTO” aproximou-se e
pediu que ele levantasse.
- Senhor, o senhor não pode sentar aí, vai chegar o autor já, já.
- Oh, sim, pois bem... sou eu. Eu sou Odilon, muito prazer –
respondeu ele, cordialmente.
- Ah, é? É o senhor? Peraí, vou chamar o gente. FÁBIÔ!
E saiu andando por entre as prateleiras cheias de títulos escritos
por meio de psicografia. Momentos depois, aproximou-se de Odilon um rapaz pouco
mais velho que a mocinha em treinamento, sendo seguido de perto por ela e claramente
estressado, mas fazendo o possível para parecer gentil mesmo falando rápido e com pressa:
- Boa noite, seu Odilon! Está tudo certinho? Meu nome é
Fábio, sou o gerente desta filial. A Emanuelle vai assessorar o senhor esta
noite. Qualquer coisa pode falar com ela. Me desculpe não poder acompanhar o
senhor, mas esse lançamento do DVD está tomando todo o meu tempo e... PERAÍ, EU JÁ VOU! – e
disse essa última frase a alguém que desesperadamente tentava chamar sua
atenção para uma criança que estava tentando escalar uma ilha de DVDs para tentar
alcançar o que estava mais no alto, pois julgava ser “o mais novo”.
Odilon não teve chance de falar com
o gerente. Emanuelle movia-se no mesmo lugar, sem notá-lo, esticando o pescoço
para ver o que estava acontecendo lá onde estava o fuzuê pelos DVDs. Era nítido
que acompanhá-lo não era a função que ela desejou para aquela noite e só o
fazia pois foi o que gerente havia mandado. Impaciente, acabou pedindo licença fazendo
um gesto com as mãos e foi atrás de alguma tarefa mais emocionante.
Após uma hora que pareceu durar
um quarto de século, o pai de uma das crianças esquivou-se da confusão e foi
dar uma volta na livraria. Encontrou Odilon sentado com seu aspecto
desesperançado e inicialmente pensou que se tratava apenas de um aposentado
que, cansado de não interagir com ninguém, resolveu sentar-se numa livraria
para observar a vida alheia. O resto do cenário, porém, disse diferente, e a
pilha de livros foi um elemento chave para ele perceber que estava diante de um
autor em sua noite de gala.
- Licença, o senhor é o autor
deste livro? – não custava checar.
- Sou, sim, prazer. O senhor veio
para a noite de autógrafos?
- Não, meu filho Julio está ali
com as outras crianças por causa desse DVD aí que lançaram. Eu chamo essa série
de "furo no bolso".
- Certo...
- Mas esse livro – folheou
algumas páginas – é sobre o que?
- É um romance sobre um jovem
cineasta que vai filmar seu primeiro longa metragem, que se passa no sertão, e
quando chega no interior do Ceará com a equipe um fenômeno tropical os
surpreende e chove na região por 60 dias seguidos.
- Que interessante!
- Obrigado.
- Eu levaria um, mas só leio
livros de ficção científica, sabe? Eu acabo me desinteressando dos outros.
- Entendo. Não quer dar de
presente?
- Nah... eu daria para a minha
esposa, mas ela é completamente paranoica e eu precisaria ler antes dela, pois,
se houver algo que ela não goste na leitura, ela vai querer saber o que é que
eu quis dizer com isso.
- Tudo bem.
- Mas achei bacana! Vou indicar
por aí. Ah, o Julio tá me chamando, acho que conseguiu o autógrafo daquele ilustre desconhecido e agora quer que eu tire uma foto... Foi bom te conhecer, tchau!
De maneira que Odilon permaneceu
sentado por mais algumas horas sendo interrompido ocasionalmente por outros
pais incautos e muito raramente por Emanuelle, que agora se preocupava em não
deixá-lo desassistido para que nenhuma queixa chegasse aos ouvidos de Fábio.
Apareceram dois amigos e uma
prima de Odilon. Fizeram questão de ser fotografados com ele, mesmo que fosse
com o celular, mas tornaram-se um tanto incômodos quando tornaram aquela noite
um motivo para reclamar de diversas coisas, principalmente da incompetência da
editora em não escolher outra data para o evento.
Ao contrário do que se possa
imaginar, Odilon não estava nem um pouco insatisfeito com isso. Ver a livraria
às moscas teria sido muito mais deprimente. De certa forma, ele sabia que o
lançamento de um livro com esse título no Rio de Janeiro não daria certo. O
carioca mal sabe o que é um calango no sol, que dirá quando está chovendo...
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